Ao longo dos últimos 10 anos, tenho me dedicado ao fortalecimento da identidade de empresas atuantes em setores diversos. Apesar de se tratarem de negócios bem diferentes, com trajetórias e estilos de liderança particulares, esses clientes têm registrado a satisfação com a transformação vivenciada ao longo do processo. Isso aconteceu porque eles abriram caminho para um maior autoconhecimento.
Segundo Richard Barrett, especialista inglês em cultura, assim como os seres humanos apresentam uma sequência natural de necessidades a serem saciadas, as empresas apresentam também níveis de consciência e necessidades que começam com a sobrevivência (Nível 1), passam pelo nível de transformação (Nível 4) e chegam ao nível máximo de servir à humanidade (Nível 7). Nem todas as empresas percorrem todos os níveis. Muitas não chegam ao nível de transformação, mas este é fundamental para chegar aos níveis máximos.
O que tem acontecido atualmente é que essa transformação não é mais uma decisão exclusiva do negócio, oriunda de um desejo da sua alta liderança; ela tem sido necessária diante dos diversos impactos das tecnologias digitais na vida das pessoas e, consequentemente, nas dinâmicas organizacionais.
Nesse contexto inquieto, de busca por mudanças e adaptação, as empresas têm buscado uma reflexão mais profunda sobre sua identidade presente e futura – quem somos e quem queremos ser. Elas querem mais e reconhecem que a forma como atuaram até então não garantirá um novo nível de desenvolvimento.
Uma forte crença nos guia: o autoconhecimento é fundamental em todo processo de mudança. É essencial entender com clareza a trajetória até aqui e o porquê das escolhas já feitas para iniciar a transformação.
No entanto, presenciamos atualmente a busca pelo novo irrestritamente… quase como uma negação do passado, com líderes imediatistas e desconectados com a identidade do negócio. “O que passou passou”, diz o ditado, mas, se esse pensamento estivesse certo, as empresas tenderiam a se tornar parecidas. Então o que diferencia as empresas de forma longeva? Essa resposta é encontrada quando conseguimos entender o porquê da empresa fazer o que faz, da forma que faz, e isso requer um resgate, um garimpo, investigação… é como puxar um fio que vai nos levando à compreensão de fatos, escolhas, atitudes.
É aí que surge o interesse crescente no propósito e sua relevância em ampliar o entendimento de cada membro da equipe sobre o projeto do qual faz parte e do significado do seu trabalho. Ele representa a principal diretriz para despertar nas equipes a vontade de se adaptar aos novos cenários e de inovar em suas rotinas.
O propósito funciona como a bússola da organização. Um caminho, um norte, que direciona a experimentação, aprendizado e adaptação. O propósito une, integra, dá liga às pessoas.
Obter um claro alinhamento interno sobre a nossa essência e o que nos move, envolvendo a mais alta liderança, é vital para evitar que os times se percam numa busca eufórica pelo novo.
Quando as empresas buscam apenas grandes sacadas de inovação ou alta disrupção, acabam perdendo a capacidade de inovar a cada dia, em todas as áreas. É preciso enxergar que essa necessidade latente de inovação precisa ser vivenciada com experimentos diários, não apenas com saltos isolados.
Todos os dias, tomamos conhecimento de uma proliferação de novos modelos de negócios, processos e estilos de liderança; muitos influenciados pela mentalidade de startups e empresas digitais como Facebook, Netflix, Spotify – protagonistas dessa nova já considerada a “4ª Revolução Industrial”. É hora de diminuir o benchmarking, reduzir a ansiedade pela busca das melhores práticas e investir energia na geração de maior autoconhecimento. É ele que dará clareza sobre a trajetória até aqui, apontará os caminhos mais coerentes e resultará numa maior compreensão e engajamento dos líderes e de todo o time.
Líderes engajadores ampliam a sintonia empresarial. Eles têm habilidade em gerar compreensão da identidade e do sonho compartilhados; da necessidade de mudança e dos caminhos a serem seguidos; e do significado do trabalho de cada um.
O não entendimento deste significado do trabalho tem sido um importante gatilho da “entropia organizacional”: o nível de disfunção, de energia negativa instalada na empresa, que compromete o engajamento das pessoas. O aumento da entropia é muito comum em momentos de mudança, em que cresce o chamado “trabalho alienado” – aquele em que as pessoas fazem por fazer, sem identificar o sentido para tal.
Fortalecer o autoconhecimento coletivo, a partir de um propósito claro e significativo, é o que dará clareza a essa jornada, orientando novas experiências e aprendizados com um time muito mais sintonizado, produtivo, assertivo e feliz!