Propósito, Inovação e Governança conectados com o futuro desejado. A longevidade das empresas familiares exigirá isso.

O contexto de transformação em que vivemos tem contribuído para tornar o desafio da sucessão nas empresas familiares ainda maior. Elas vivem uma conjuntura em que se sobrepõem esses dois fatores suficientemente complexos por si só.

O cenário de evolução linear, baseada em planejamento e previsibilidade, sobre o qual era possível conduzir uma gradual transferência dos papéis, foi substituído por aquilo hoje batizado de cenário V.U.C.A – volátil, incerto, complexo e ambíguo, causado pelos crescentes reflexos da tecnologia nas vidas e experiências das pessoas. Este contexto gera, naturalmente, diferenças expressivas nos mindsets das gerações que estão hoje trabalhando para a sucessão nos negócios. Diferenças que tornam as conversas, ou “negociações”, mais difíceis sobre “o valor do passado/o que precisa ser preservado” e “o desafio do futuro/o que precisa ser aprendido”. Momento que requer desapego, empatia e pensamentos “fora da caixa” (fora da agenda em andamento).

Diante desse amplo contexto de mudanças, o alinhamento sobre as reais motivações para o futuro da empresa familiar torna-se uma fundação essencial de onde deverão ser erguidas as estratégias para a sucessão e longevidade do negócio. Porque, certamente, o “como” essas estratégias serão realizadas deverá ter diferenças significativas da forma como as coisas foram encaradas e conduzidas até aqui … e essa é uma questão que gera naturalmente preocupações tanto em quem está para passar o bastão, como também em quem está para receber esse bastão.

Temos acompanhado o investimento crescente no Propósito, na Inovação e também nos instrumentos de Governança, mas o que as famílias precisam garantir é, acima de tudo, uma visão unificada sobre o futuro que desejam construir.

Minha visão é de que esta construção envolve expertises que precisam somar mais: Identidade, Inovação e Governança. Esse tripé precisa estar cada vez mais integrado, como forças complementares em direção ao futuro desejado.

Vejo a Identidade Corporativa, o meu universo de trabalho há dez anos, exercendo um papel muito relevante nesse sentido. “Propósito”, “Sucesso desejado”, “Cultura”, “Proposta de Valor”, “Fotografia esperada” equivalem a diretrizes que são trabalhadas em cadência para o fortalecimento dessa Identidade que tem como objetivo gerar alinhamento, significado e valor percebido em todo o ecossistema empresarial. Além de ser um instrumento-chave nas reflexões da família, provocando conversas e sinergia, a Identidade contribui também para o tão fundamental engajamento das equipes para se dedicarem verdadeiramente a essa trajetória de mudança, aplicando uma energia singular na construção do futuro. Dela pode derivar ainda uma maior atratividade de talentos, fornecedores ou empresas de outros segmentos que se reconhecem nas declarações ou percepções daquela empresa e desejam uma aliança estratégica nos moldes do “ganha-ganha”. São exemplos de benefícios da identidade que vão além dos reflexos na família, mas que dependem essencialmente dela.

Esta identidade não deve representar simplesmente a realidade atual; ela precisa inspirar. Contemplar com clareza essa visão de futuro que indicará os caminhos, escolhas e comportamentos coerentes com o que está sendo buscado.

Parafraseando John Mackey e Raj Sisodia, autores do livro Capitalismo Consciente, “assim como as pessoas precisam do alimento para sobrevirerem, as empresas dependem do lucro para continuarem existindo. Mas, nenhum indivíduo vive para comer.” Aí vem a pergunta: a empresa deverá continuar existindo para quê? Essa jornada rumo à perpetuidade precisa de um significado que vá bem além da geração de dividendos para os acionistas.

Sobre a dinâmica de Inovação, há um grande risco dela se tornar dispersa; orientada a uma oferta crescente de tecnologias e soluções. Segundo Peter Diamandis, co-autor do livro Abundância, “a tecnologia existente é uma força liberadora de recursos”. A questão que se torna mais e mais relevante é: onde aplicar esses recursos? Como ouvi de Murilo Gun, que tem propagado a importância da criatividade nas empresas, um dia desses: “cavar no lugar errado é cavar errado”. Fundamental garantir que os critérios de escolha estejam bem claros e que pavimentem os melhores caminhos no roadmap da inovação. Segundo o futurista Koulopoulos, o único elemento consistente que realmente sustenta a inovação nas organizações é a liderança. A visão unificada da família, esteja ela ainda presente na gestão ou não, precisa inspirar!

Quanto à Governança, o futuro precisa ter presença contínua em suas pautas. A conexão das gerações nessa conversa aberta e profunda é necessária para a construção de uma base sobre a qual decisões, escolhas, comportamentos irão derivar. As agendas nos diversos fóruns da governança precisam contemplar isso, precisam provocar o diálogo construtivo entre as gerações e garantir sintonia em relação ao desenvolvimento de novas fórmulas de sucesso, hábitos que precisam ser rompidos, investimentos que precisam ser realizados; por exemplo. O planejamento precisa ir além do curto prazo e do modelo de negócio atual; é necessário canalizar o olhar de todos para um futuro mais distante e para a real transformação rumo à perpetuidade que precisa começar já.

Penso que essa construção e alinhamento da visão de futuro pode vir a ser adiada de forma até um pouco inconsciente. Tema difícil, com implicações em questões do presente, mas fundamentais para a longevidade do patrimônio hoje compartilhado pelas famílias. Para que este valor seja preservado e ampliado, na proporção do crescimento das famílias, o assunto precisa ser tratado com a leveza que um futuro próspero requer. Como bem inspira Peter Diamandis: “Hoje, pessoas direcionadas por uma paixão e com foco claro, podem fazer coisas extraordinárias.” Que esta direção torne-se cada dia mais clara e enriquecedora, funcionando como uma forte alavanca de valor!