#VAIPASSAR // Mas o que deverá ficar de evolução no mindset dos líderes?

Minha motivação aqui é compartilhar expectativas ligadas a uma calibragem natural na visão, crenças e habilidades dos líderes (acionistas, conselheiros, diretores), ou seja, no mindset desses fundamentais stakeholders, a partir de toda a problemática e incertezas que estamos vivendo. Sugerir uma troca sobre a evolução esperada daqueles que lideram o presente e traçam as coordenadas para o futuro das empresas – de qualquer tamanho, complexidade ou segmento de atuação.

Certamente, nossas experiências influenciam nosso olhar e nossas expectativas… daí a riqueza da troca. O meu olhar, como profissional focada na identidade empresarial e no alinhamento organizacional em torno dela, projeta, com alto otimismo, o fortalecimento do diálogo em torno de um “jeito de ser e de fazer” verdadeiramente mais humano e o aumento da coerência entre as diretrizes culturais e o dia a dia de toda a empresa. Que o olhar para as pessoas transborde e muito as fronteiras das áreas de RH e Marketing; que a sintonia com as pessoas (colaboradores, clientes, fornecedores, comunidades, parceiros etc) cresça em todas as áreas e que seja a alavanca para melhores resultados para todos.

Como observadores, é fácil perceber que essa inédita crise tem funcionado como um catalizador aumentando o interesse das empresas no universo da inovação e acelerando o processo de digitalização. Enxergo também que o mesmo está acontecendo no que podemos chamar de um processo de humanização que intensifica o valor das relações.

Nas empresas que estão conseguindo manter suas atividades (mesmo que seja via home office), temos visto alguns movimentos significativos em suas dinâmicas organizacionais que podem já refletir uma evolução na visão dos líderes, e não apenas uma medida contingencial exigida pela pandemia. Citarei alguns exemplos: um olhar atento e preocupado com a saúde e bem-estar dos colaboradores, um investimento crescente na comunicação interna, maior preocupação em conquistar o engajamento e senso de urgência das equipes, intensa conexão entre líderes de unidades e áreas, maior integração entre as partes da cadeia de abastecimento etc. Entendo que esses são movimentos fundamentais para a travessia da crise… mas que são também atitudes de alto valor em qualquer outro cenário, que trarão sempre benefícios diversos: mais satisfação no trabalho, mais assertividade, mais produtividade, mais valor para todos!

Foi nessa linha de observação que listei aqui algumas questões ligadas ao mindset empresarial que eu acredito que passarão a ter ainda mais relevância no ambiente corporativo e deverão se tornar importantes habilidades no novo tempo que já se inicia.

LIDERANÇA ORIENTADA PELO PROPÓSITO

O pensamento do Capitalismo Consciente, muito bem representado na obra de John Mackey e Raj Sisodia, propaga essa rica mensagem que guardei na minha “pasta” de preciosos pensamentos:

“Assim como os seres humanos precisam de comida para sobreviverem, as empresas precisam de lucro para continuarem existindo. O fato é que nenhum ser humano vive apenas para se alimentar”.

Um nível de consciência organizacional mais humano que verdadeiramente olha e se preocupa em beneficiar todo o seu ecossistema. Acredito fortemente que esse equilíbrio tão bem defendido pelo Capitalismo Consciente deverá passar a encontrar terreno mais fértil nas pautas das lideranças e do sistema de governança. Que o propósito, a bússola organizacional, tornará-se mais consciente e, assim, estará mais presente nas reflexões, escolhas e tomadas de decisão.

IMPACTO SOCIAL ATRAVÉS DE ATUAÇÕES COLETIVAS

A realidade que vivemos tem nos dado grandes demonstrações do quanto as empresas podem agregar em questões relacionadas a grandes demandas da humanidade e que essa capacidade é ainda maior quando elas se unem para somar em uma mesma causa.

Muitas organizações estão dando exemplos fantásticos de empatia, solidariedade e generosidade. O pensamento que fica é: e se essa mobilização for contínua, indo além da crise? E se várias empresas se unirem em torno da solução de grandes problemas, com forte impacto social? Mais recursos, mais aptidões, mais acesso, mais ideias, mais articulação… Mais energia para fazer as coisas acontecerem.

Que as empresas se preocupem menos com a autoria e reconhecimento de suas iniciativas sociais, e foquem mais em, de fato, impactar positivamente e fazer diferença. Identificar empresas próximas geograficamente ou mesmo distantes, do mesmo segmento de atuação ou não, que tenham preocupações e motivações convergentes, será o ponto de partida. Algo de grande valor e eu torço para que seja um movimento crescente e perene.

Mas esse desejo, foco e mobilização de pessoas e recursos não pode ser atribuído a uma “área de responsabilidade social”, sem diminuir em nada a relevância dela… ele precisa permanecer de forma prioritária, contínua e sistêmica no radar da liderança.

COLABORAÇÃO PROMOVENDO SOMA E OTIMIZAÇÃO

Segundo Evan Rosen, autor do livro A Cultura da Colaboração, “a colaboração maximiza o tempo, o talento e os recursos para criar valor”. Já Mark Granovetter, autor do livro Sociedade e Economia, define colaboração como “a sabedoria das massas ou inteligência coletiva”, e afirma que variados pontos de vista e conhecimentos apresentam alta capacidade de resolver problemas com soluções de maior valor.

A colaboração nos traz soma e otimização, e o resultado é sempre fazer mais, melhor e com menos de cada parte.

A Folha de São Paulo publicou na semana passada um dado que me chamou atenção: o CADE registrou um aumento de 30% na quantidade de fusões e aquisições no mês de março/20 em relação ao mesmo mês em 2019. Considerando o primeiro trimestre todo, o aumento foi de 27%, o que indica que ainda não há influência da pandemia nesses dados. Imagino que as causas desse fato podem ser bem diversas, mas reflito se esse movimento já pode representar uma busca dos empresários por essa colaboração.

Mas ela não depende de uma decisão complexa como uma fusão ou aquisição… os líderes só precisam dedicar mais atenção à construção de formatos alternativos onde as empresas possam co-construir mais, inovar mais, gerando mais benefícios: para cada parte, para a sociedade e também para o nosso planeta. Simplicidade, valorização do outro e abertura serão princípios fundamentais nessa jornada.

DESAPEGO E VISÃO DE FUTURO PARA FOCAR NO ESSENCIAL

Assim como o confinamento tem nos feito refletir sobre o que, de fato, tem importância em nossas vidas, como seres humanos… o momento é também oportuno para a reflexão nas empresas sobre o que faz realmente sentido continuar aplicando energia (negócios, produtos, serviços).

Que a tendência ao continuísmo – manutenção e fortalecimento do que já foi construído – seja combatida e que o critério de sucesso associado apenas a números seja ponderado com o aspecto qualitativo e social.

Que a diretriz maior seja de focar no que realmente faz diferença para as pessoas e para o crescimento sustentável do negócio. Uma clara visão de futuro perseguida com atenção, disposição e atitude para identificar o que está saindo do trilho e fazer os ajustes necessários; não poderão faltar.

Enfim, vivo em minha quarentena uma inquietação em ver esses temas mais presentes nas diretrizes culturais e no dia a dia das empresas. Sou sensível e solidária às muitas dificuldades vivenciadas nesse momento e me preocupo em não parecer alienada a tudo isso ao propor esta reflexão que pode parecer “teórica” para alguns… mas as dores do momento deverão ser o combustível principal para as mudanças, por isso, ela não deve ser adiada. Torço para que as lideranças estejam sensíveis à necessidade de revisão do mindset e que a conexão propósito, cultura & liderança torne-se cada vez mais simbiótica, garantindo uma relação mútua de influência, evolução e prosperidade. Tudo isso vai passar, mas a inquietação para crescermos em todos os nossos papéis – pessoais e profissionais – precisa permanecer.

Obs: Caso você não se sinta à vontade para compartilhar aqui suas expectativas ligadas à evolução da liderança, agradeço o envio de uma mensagem direta ou por email (karina@uniqbranding.com).